Psicóloga diz como pais devem ensinar filhos sem bater
Acompanhe a polêmica lei que pode proibir castigos que machuquem ou causem dor nas crianças.
Muitas famílias acreditam que dar uma palmadinha ajuda na educação dos filhos. Mas um projeto de lei, que ainda vai ser votado no Congresso, quer acabar com qualquer tipo de castigo físico para crianças e adolescentes.
O Fantástico foi às ruas e descobriu que muitos pais dão palmadas, porque não sabem como educar os filhos de outra forma.
Uma mãe reage à birra da filha dando uma chinelada nela. A estudante Camila de Oliveira, de 20 anos conta, ao lado da mãe, Leidice Cabral, que também sofria castigos físicos na infância.
“Você vai ficando mais velha e já não aceita a sua mãe vir para cima de você. Pode acabar gerando um conflito maior você querer enfrentar”, diz Camila.
“Hoje, se ela tiver um filho e quiser dar palmadas, eu não vou deixar”, garante Leidice Cabral, mãe da jovem.
“Em muitos casos, a pessoa só está reproduzindo, acha que é normal, porque ela foi criada assim. A criança acha que meu pai pode me bater, porque é meu pai e tem o direito. Não tem o direito de bater”, aponta o conselheiro tutelar Heber Boscoli.
Esta semana, o governo mandou para o Congresso um projeto que complementa um artigo do Estatuto da Criança e do Adolescente e que traz à tona mais uma vez essa discussão.
Pelo projeto, atitudes para punir ou disciplinar não podem machucar nem causar nenhum tipo de dor. Crianças e adolescentes também não podem ser humilhados nem ameaçados. Mas, na prática, será que pais e aqueles que cuidam de crianças sabem o limite quando o castigo vira uma agressão?
“É preciso que a criança seja educada com cuidado. Agora, de vez em quando, uma palmadinha - não é espancar, não é bater - acho que não faz mal nenhum não”, opina o engenheiro Airton Campos.
“A nossa preocupação é com palmadas reiteradas ou a palmada que vai à surra e que vai ao espancamento, que vai agravando a conduta de violência”, diz a subsecretária nacional de Direitos da Criança e do Adolescente, Carmen Oliveira.
Os pais que descumprirem a lei podem ser encaminhados a tratamento psicológico.
“Sou contra dar um beliscãozinho ou um tapinha, porque não é assim que criança aprende. Ela aprende com castigo, retirando aquilo que ela gosta”, comenta a dona de casa Ana Cláudia Nascimento.
Os dois menores ficaram de recuperação na escola. Por isso, “não vão à festa que teria agora”, conta Ana Cláudia.
Mas nem todos os pais sabem como agir quando os filhos erram. É o caso da dona de casa Glauce Torres, a mãe que tem dificuldades para controlar a filha Camille, de um ano e nove meses.
“Ela joga tudo no chão. Quando a gente vai pedir para pegar, ela não pega. Mas, se eu pegar o chinelo e mostrar, ela vai catar tudo, brinquedo, roupa, vai catar e vai guardar”, afirma a mãe.
Levamos Glauce até uma psicóloga, para conhecer outros caminhos para educar, sem bater.
A primeira dica da psicóloga para crianças de até dois anos, como a Camille, é agir rápido: “Pegar a criança e deslocar para outro espaço imediatamente. Não deixar você se desgastar para chegar nesse ponto de dar o tapa”, aponta a psicóloga Carla Maia.
É preciso pegar a criança no colo e olhar nos olhos, o que Glauce não estava fazendo: “O desespero dela é que você vira o olhar, e ela fica desesperada, porque todos nós temos pânico de sermos abandonados e muito mais a criança”, afirma Carla Maia.
Outra dica é conversar. Se os pais gritam, os filhos também vão fazer isso para conseguir o que querem: “A educação vai acontecer na medida em que ela puder viver com você e com o pai um exemplo da tranquilidade na hora em que ela viver o acesso de raiva”, aconselha a psicóloga Carla Maia.
Entre 3 e 4 anos da idade, é importante que os pais expliquem o que esperam da criança: “A dinâmica melhor para se fazer é colocar a criança em cadeiras de adulto. A partir de 3 anos, você deve sentar com elas e dizer mesmo que naquela casa é inadmissível que se bata. Naquela casa, a gente conversa, a gente conta”, explica a psicóloga Carla Maia.
“Só que houve evolução e as pessoas têm que acompanhar. Você acompanha moda, acompanha tudo, então vamos acompanhar a evolução da família”, afirma o conselheiro tutelar Heber Boscoli.